História

EM HONRA DA MEMÓRIA DO BARÃO E VISCONDE DE MAUÁ

“Eu sou eu e minhas circunstâncias
                                                                                                                 Ortega y Gasset

 

O Partido Trabalhista do Brasil – PT do B – tem como patrono de sua fundação dedicada a estudos e pesquisas o notável empreendedor e realizador Irineu Evangelista de Souza, Barão e Visconde de Mauá, cuja trajetória será mostrada - e evocada - neste sítio em diferentes oportunidades. Mais que qualquer outro brasileiro, ele representa o ideário dos milhões que aqui aportaram, e viveram, desde o início da construção da pátria brasileira, nos primórdios do século XVI até o presente.

É verdade que o Brasil sempre foi pródigo em personalidades deste tipo, porém, nunca lhes deu o merecido valor. Reconhecemos pouco a relevância dos homens livres e audaciosos que, no dia-a-dia de suas vidas, cuidaram de si e de suas famílias com o esforço do próprio trabalho. Homens que organizaram, produziram, trocaram e distribuíram bens e serviços no recorrente e costumeiro cotidiano.

Em sua instigante História do Brasil com Empreendedores, o historiador Jorge Caldeira ilustra essa nossa característica pouco conhecida, contando o significado do verbo empreender, segundo Antonio de Moraes Silva em seu Dicionário da Língua Portuguesa, de 1813 (que usava a grafia de então – emprender). Dizia o dicionário: empreender é “determinar-se a fazer alguma ação laboriosa e difícil; empreender a conquista, o descobrimento, a guerra da Ásia, uma jornada; empreender qualquer justo perigo; expor-se”.

Reportando-se, em seguida, ao primeiro documento da história brasileira – a Carta de Pero Vaz de Caminha – o excelente historiador chama a atenção para um fato prosaico, quase uma simples curiosidade, contido no relato feito a D. Manoel, rei de Portugal. Dois jovens grumetes, sem nome, sem identidade e provavelmente sem maiores qualificações, fogem de um dos navios da frota quando esta se afasta da costa brasileira em direção às Índias. Os anônimos marinheiros vão aportar na praia, onde os portugueses estiveram, a bordo de um pequeno bote, ou esquife [é isso mesmo?]. Pedro Álvares Cabral já havia deixado em terra dois degredados – criminosos que os incipientes colonizadores costumavam lançar nos locais por onde passavam, a fim de constituir o primeiro passo de ocupação futura.

O almirante lusitano não fez isso por acaso; era tão somente a concretização deliberada de um projeto do Estado português, já aplicado com sucesso na costa africana, onde os lançados constituíam os primeiros intermediários com nativos e lideranças locais. Num futuro não distante, os homens deixados compulsoriamente à própria sorte deveriam ter constituído interlocução com os habitantes e construído pontes que iriam servir aos interesses que a corte portuguesa perseguia. Quando, em data ainda incerta, outro navio ali aportasse, esperava-se que ele lá encontrasse um credenciado interlocutor para facilitar os negócios.

A Carta de Caminha deixa transparecer tais intenções com nitidez. Diz ela:

“Segundo a mim e a todos pareceu, a esta gente não falta outra coisa para ser toda cristã senão entender-nos, porque tomavam aquilo que nos viam fazer imitando-nos como nós mesmos, pelo que nos pareceu a todos que não tinham nenhuma idolatria nem adoração. E bem creio que, se Vossa Alteza mandar quem entre eles mais devagar ande, todos serão tornados aos desejos de Vossa Alteza. E por isso, se alguém vier, não deixe logo de vir clérigo para os batizar, porque então terão já maior conhecimento da fé, dado pelos dois degredados que ficam, os quais comungaram na missa de hoje”.

   Mas, e os dois grumetes? Que palavras foram reservadas a eles? Continua, então, o relato do escrivão da frota:

“Acabada a missa, fomos entre eles beijar a cruz, despedimo-nos e viemos comer a bordo. Creio, Senhor, que com esses dois degredados ficam dois grumetes que se saíram desta nau no esquife fugidos para a terra, e não vieram mais. E creio que ficarão porque, prazendo a Deus, fizemos daqui partida”.

Jorge Caldeira elucida os dois movimentos relatados por Caminha. O primeiro, de largada em terra dos dois degredados – contra sua vontade - simboliza a imposição de uma “missão do Estado”, vale dizer, “disseminar os desejos da autoridade do rei e da salvação da alma entre os seres vistos como inocentes”. O mais significativo está dito apenas de relance pelo escrivão, em referência aos jovens fujões. A verdade é que os atos destes foram “decisões individuais no sentido contrário da obediência aos desígnios do alto: fugir do coletivo, escapar da autoridade. Contrariando a ordem representada pelo capitão, representante do rei, e praticando um crime de roubo, dois grumetes se arrojaram em terra por sua conta. No momento da primeira remada, iniciaram uma jornada que os levou para o desconhecido. Por vontade própria lançam-se para longe do mundo onde cresceram, sem possibilidade de voltar. Remar para a terra era empreender... (na acepção) de determinar-se a realizar uma tarefa. No caso, cortar as amarras com a vida pregressa, abandonar tradição, autoridade e religião, buscar um novo caminho não previsto para a vida – atirando-se ao chamado de um povo desconhecido, mas atraente em sua nudez”.

Os dois grumetes, os primeiros empreendedores desta terra, deram um salto no escuro. Foi “um impulso de mudança, a aceitação de uma tarefa própria na vida”. Isso “tornou-se uma marca definitiva na vida dos grumetes – e de todos que seguiram o mesmo chamado. Está por trás de cada ato posterior de mesma natureza de pessoas que se estabeleceram na terra por vontade própria. Define o Brasil como um território para onde valia a pena se mudar – e criar um destino diverso daquele dado pelas condições de nascimento. Nesse sentido de empreender, trata-se, claro, de realizar uma mudança de caráter voluntário cujo resultado era primordialmente um ganho individual do migrante”.

Não há notícias do destino dos dois grumetes. Não se sabe quanto viveram nem onde, se foram felizes ou infelizes. Tampouco se conhece dos seus descendentes (provavelmente foram inumeráveis, em vista dos costumes imemoriais dos nossos indígenas, com destaque para o que Darcy Ribeiro chamou de cunhadismo, onde mulheres eram dadas ao estranho para integrá-los na sua estrutura de parentesco). Se sua genética, por acaso, não teve continuidade, seu DNA espiritual prosperou largamente. Ele está gravado na alma dos milhões de brasileiros que trabalham por conta própria, que matam um leão a cada dia, que desbravam e inventam, que cometem a audácia de ousar arrostando dificuldades que vão do poder opressivo dos governantes - com sua gula tributária - até aquelas próprias da insuficiência de capitais e dos riscos trazidos pela competição nos diferentes mercados. Este brasileiro genérico, contudo, sobreviveu e sobrevive, há séculos, contando quase que exclusivamente com seu próprio trabalho, e alguma pecúnia que consegue acumular com extraordinário esforço seu e de sua família.

O Barão e Visconde de Mauá faz parte dessa linhagem dos que empreenderam e realizaram antes e depois dele. Tais personagens bem poderiam ser mais bem definidos como os fazedores, ouos que fazem acontecer. Falências e fracassos eventuais nunca os desanimaram. Se caem, como diz o velho samba, levantam, sacodem a poeira e dão a volta por cima. O poder público, no entanto, pouco se preocupou com eles. Os governantes ainda hoje falam mais a seu respeito do que se devotam a lhes facilitar a vida. Artesãos, comerciantes, reparadores diversos, prestadores de serviços pessoais, pescadores, sitiantes etc., configuram, atualmente, uma miríade de verdadeiros e laboriosos trabalhadores que constroem a riqueza do Brasil sem quaisquer garantias ou privilégios iguais aos que a legislação atual, por exemplo, reserva aos que são assalariados, quer na iniciativa pública quer na privada. De fato, que sentido teria uma discussão sobre direitos trabalhistas como décimo terceiro salário, férias, abono salarial, estabilidade no emprego etc., para donos de oficinas, de bares, de salões de beleza, motoristas de táxi e outros trabalhadores autônomos? Apesar de serem classificados como “patrões”, costumam trabalhar mais que seus próprios eventuais colaboradores.

Inspirados no Barão e Visconde de Mauá pretendemos re-elaborar os fios da história do Brasil, no sentido de realçar o papel fundante dos homens e mulheres que nos últimos cinco séculos, anonimamente, em sua vasta maioria, correram riscos, inovaram e buscaram alternativas para si e para suas famílias. O PT do B quer representar politicamente tais fazedores. E quer lhes fazer justiça contribuindo para a elaboração de leis e políticas públicas que os reconheçam como sujeitos fundamentais de nossa história. O momento político brasileiro está maduro para acolher tais pretensões.   

Belo Horizonte, Fevereiro de 2011.

Deputado federal Luis Tibé – Presidente Nacional do PT do B.